Caboclo Boca da Mata: o grande cacique de Santo Amaro da Purificação

O caboclo é um ser construtor, foge das classificações nativas e acadêmicas, é um ser que imprime liberdade

Foto: Marlon Marcos
Foto: Marlon Marcos

Meu Deus, como compartilhar uma experiência espiritual? Experiência religiosa e estética enovelada nas raízes mais profundas das nossas religiões de matrizes africanas salvaguardadas no Recôncavo da Bahia. Entre os dias 13 e 14 de janeiro, na cidade de Santo Amaro da Purificação, no Ilê Axé Omorodé Loni Oluaye Omorodé, dirigido pelo babalorixá Gilson de Oxóssi, um caboclo foi festejado convidando outros encantados e os seres humanos para instantes de trabalho, sacrifício, contrição, beleza, cânticos, danças, sambas, atabaques, violas, frutas, folhas, cervejas, jurema, maniçoba, frangos e carnes bovinas assadas, farofas, rezas, pedidos, salvas, choros, alegrias e Cura. Dois dias dedicados a uma entidade que funciona como espécie de adido cultural para a sofrida cidade de Roberto Mendes. Na noite de sábado, um grande xirê (roda ritual que abre as festas públicas nos barracões) feito pelos filhos da casa e os convidados especiais desta fé, cantando e dançando para os inquices no congo-angola, como costuma ser na maioria das casas que, mesmo sendo de nação nagô e jeje, cultua caboclos e só vira para eles depois de louvar os inquices em cânticos em kicongo e kimbundo. Após o xirê, guiados por pai Gilson e outras autoridades do candomblé, a maioria se dirigiu para a “Aldeia”, palácio real construído para o caboclo Boca da Mata, senhor maioral nas relações entre humanos e não humanos naquele terreiro, para entoar rezas e salvas, cantar o ingorossí, e chamar a terra todos os encantados que quiseram vir. Depois, os caboclos manifestados em seus filhos dançaram, cantaram, beberam, fumaram, entre salvas e sotaques, e deram o “abraço de bom coração” numa assistência alegre e comovida com a força daquela noite.

No segundo dia, a partir das 14h, o samba de viola, lotado de chulas, o que evidencia muitas células musicais usadas na música artística brasileira e que foram criadas nos terreiros pelos caboclos e caboclas nessa experiência que eu chamo de Transnação, para explicar as afetações entre as nações rituais (congo-angola, jeje e ketu), onde as especificidades de uma interferem nas da outra, onde muitas coisas se conservam e outras são modificadas pelo fluxo experiencial da cultura. O candomblé nunca foi puro, e a Transnação evidencia esses fluxos e refluxos, onde as águas rituais viram, se modificam e se conservam à medida do possível.

Seu Boca da Mata é um ser vivo. Um ente que interfere na vida da sua comunidade e ultrapassa os muros do terreiro. Um índio de narrativa sofrida que vem em espírito na carne de pai Gilson trazer aprendizagens, alívio e cura para todos que quiserem o conhecer. O caboclo é um ser construtor, foge das classificações nativas e acadêmicas, é um ser que imprime acima de tudo: liberdade. Marrumba Xetu.

 

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Marlos Marcos é poeta, jornalista, antropólogo e professor da Unilab.

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